Ruy Castro – Biógrafo e cronista do Rio de Janeiro
Cada mês, o Álbum de Memórias trará uma matéria especial sobre um grande nome da Literatura, Jornalismo ou Cinema. E para inaugurar o quadro “Escritor do mês”, vamos conhecer o jornalista que biografou importantes figuras nacionais e sabe tudo sobre a história do Rio de Janeiro: Ruy Castro.
Origem
Mineiro de Caratinga, Ruy Castro chegou ao Rio de Janeiro ainda adolescente e frequentou o curso de Ciências Sociais na extinta Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi). Não seguiu carreira na área, mas começou a trabalhar no Correio da Manhã em 1967, onde teve a oportunidade de atuar ao lado de Paulo Francis, um dos grandes nomes do jornalismo brasileiro. “O meu sonho sempre foi o Correio da Manhã, considerado o melhor jornal do Brasil à época. Comecei cobrindo atropelamento de cachorro, asfalto esburacado e nascimento de girafa no zoológico. Só depois é que comecei a escrever sobre cultura, que era o meu maior interesse”, afirmou em entrevista à UERJ.
Depois do Correio, Ruy Castro ainda passou pelo O Pasquim, Jornal do Brasil, Veja, Isto É, Playboy, Status, Bloch Editores, entre outros veículos jornalísticos. Mas com os anos, o jornalista passou a apreciar narrativas especiais e mais longas, que demandavam tempo e dedicação para serem investigadas e publicadas. A saída era uma só: um livro-reportagem. Gênero que mescla Jornalismo e Literatura, a fórmula do livro-reportagem já era conhecida nos EUA, praticada por nomes famosos como Gay Talese, John Hersey e Truman Capote. Com essas referências e pronto para ingressar no novo desafio, Ruy só precisava escolher o tema do seu primeiro livro e se entregar à pesquisa e posterior escrita. E a escolha foi o mais carioca dos ritmos: a Bossa Nova.
Carreira literária
O grande mérito de Ruy Castro em “Chega de saudade – A história e as histórias da Bossa Nova”, lançado em outubro de 1990, além da rígida pesquisa sobre o tema, foi ter personalizado a Bossa Nova, a ponto de lermos o que parece um romance baseado em fatos reais, ou notadamente uma biografia que investigou João Gilberto, o “pai” da Bossa, e nomes como Antonio Carlos Jobim, Lúcio Alves, Nara Leão, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Sylvia Telles, Vinicius de Moraes, entre outros, importantíssimos ao gênero. O livro ganhou uma versão ampliada e revisada em 2016 e ainda é a grande bíblia da Bossa.
Depois do primeiro livro e o grande impacto positivo na época, Ruy Castro embarcou, aí sim, na escrita biográfica de um dos grandes nomes do jornalismo e do teatro nacionais: Nelson Rodrigues. A tarefa era complicadíssima porque Ruy se dispôs a contar não apenas a história do protagonista, mas dos motivos que fizeram os pais de Nelson saírem do Recife até desembarcarem no Rio de Janeiro, depois a carreira da família Rodrigues no jornalismo carioca, e também os destinos dos outros treze irmãos de Nelson. Apesar dos desafios, o livro soluciona muito bem todas essas dificuldades investigativas.

O pano de fundo carioca
Outra preocupação e mérito do trabalho de Ruy Castro é informar, para além dos biografados, as construções sociais do Rio de Janeiro do passado, a ponto de entendermos a cidade como também um personagem daquelas histórias. Ele faz isso ao biografar Nelson Rodrigues, depois Garrincha (Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha, 1995, Prêmio Jabuti em 1996), e também Carmen Miranda (Carmen – Uma Biografia, 2005). Assim, ficamos sabendo não só a vida do biografado, mas também a moda daquela época, as gírias, as atrações artísticas, o futebol, os costumes e manias dos cariocas.
O Rio de Janeiro, aliás, é a grande paixão de Ruy Castro, cidade que ele esmiuçou (além da bíblia da Bossa) em Ela é Carioca (1999, livro que conta a importância de Ipanema para a Cultura brasileira), Carnaval no fogo (2003, sobre os 500 anos do estado) Flamengo: O Vermelho e o Negro (2004); Rio Bossa Nova (2006), A noite do meu bem: A história e as histórias do samba-canção (2015, sobre o samba-canção nas boates cariocas dos anos 1940, 50 e 60), e Metrópole à Beira-Mar – O Rio moderno dos anos 20 (2019). O jornalista ainda escreveu livros de ficção histórica, como Bilac Vê Estrelas (2000) e Era no tempo do rei: Um romance da chegada da corte (2007); e também coletâneas de crônicas e ensaios.
Ruy Castro alia precisão jornalística e fluidez literária em uma harmonia digna de um maestro literário. Suas biografias, embora extensas, são leituras prazerosas e rápidas, que tanto alcançam o objetivo de informar, quanto nos colocam naquela atmosfera e época para refletir sobre um cotidiano que não existe mais.
Livro recomendado para conhecer o autor: Metrópole à Beira-Mar – O Rio moderno dos anos 20 (2019) ou a biografia de sua preferência.
Aqui um bate papo entre Ruy Castro e Marcelo Tas, de junho de 2021.